quarta-feira, 25 de maio de 2011

CONVERSA ENTRE DUAS CRIANÇAS DO SÉCULO XXCONVERSA ENTRE DUAS CRIANÇAS DO SÉCULO XXI -


- E aí, véio?

- Beleza, cara?

- Ah, mais ou menos. Ando meio chateado com algumas coisas.

- Quer conversar sobre isso?

- É a minha mãe. Sei lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando um terror, sabe?

- Como assim?

- Por exemplo: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido aí. Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Mas eu nem sei quem é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém?

- Nunca.

- Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo, o que meu pai foi fazer na roça? E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente? Será que eu sou adotado, cara?

- Como assim, véio?

- Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois tão de caso. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou filho da vizinha. Só pode!

- Calma, maninho. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.

- Sei lá. Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas estranhas sobre a minha mãe.

- Tipo o quê?

- Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou em um gato. Assim, do nada. Maldade, meu! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!

- Caramba! Mas por que ela fez isso?

- Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.

- Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.

- E sabe a Francisca ali da esquina?

- A Dona Chica? Sei sim.

- Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona, admirada vendo o gato berrar de dor.

- Putz grila. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra entender.

- Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe mesmo... Ela me contou isso de boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim. Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu não achei legal, né. Aí ela começou a falar que ia chamar um boi com cara preta pra me levar embora.

- Nossa, véio. Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com o filho.

- Mas é ruim saber que o casamento deles não está dando certo... Um dia ela me contou que lá no bosque do final da rua mora um cara, que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama ele de 'Anjo'. E ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que se fosse a dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele passar desfilando e tal.

- Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo.

- É. só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes ela fala algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo, ela disse que a vizinha cria perereca na gaiola... já viu...essa rua só tem doido...

- Ixi, cara. Mas a vizinha não é sua mãe?

- Putz, é mesmo! Tô ferrado de qualquer jeito.


rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs........




2 comentários:

  1. Nossas crianças já nascem sabendo mexer com o computador mas não sabem sequer o que são cantigas de roda e cantigas que fazem parte da nossa cultura, do nosso folclore...Como educadores nós não podemos e nem devemos deixar isso morrer e se perder com o tempo, senão vão ficar igual a essas duas crianças, rs...Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Creio que nascer sabendo é um pouco de exagêro. Mas a real intenção em postar este texto, além de dar um pouco de alegria à nossa turma, que após um longo dia de trabalho, se esforça para estar presente no curso (assim como eu e voce), foi mostrar a todos o quanto as crianças estão distante do nossa tão bela cultura folclórica. Penso que a criatividade do texto vem de alguma criança ou adolescente certamente com um pensar bem diferente do nosso. Isso me faz repensar e ter um novo olhar para a forma de educar. Sabemos que tantas outras coisas estão se perdendo junto com nosso folclore e que, se dependesse de nós isso jamais ocorreria, tendo em vista que nossa função de apenas educar, se perdeu dentre tantas outras que nos são delegadas, de forma que nos encontramos o tempo todo fazendo resgates, não é mesmo? Portanto, sinto que o diálogo dessas crianças mexe com resistências, que, de alguma forma devemos ter dentro de nós. Uma delas pode ser justamente a tecnologia. Um abraço!
    26 de maio de 2011 16:37

    ResponderExcluir